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quinta-feira, novembro 07, 2013

RETORNO AO ÚTERO

Tenho pensado sobre algumas coisas que vivi e pude ter na minha existência. Sempre achei que nascer e vir ao mundo é simbolicamente a tentativa de um caminho de volta ao útero da mãe. Depois de estudar psicologia com base na psicanálise, reforcei esse pensamento. Quanto mais grave a doença mental, mais perto este indivíduo está próximo do útero, da infância. Não é a toa que a maioria das pessoas tristes, angustiadas, choram na posição fetal. Cheguei a uma conclusão de que as minhas relações sempre foram um conforto para minha existência. Adaptei-me e adaptei pessoas, situações e pensamentos para que tornasse possível e confortável essa minha existência. Alguém me disse uma vez que eu nunca compreendi o sentido do AMOR, porque nunca fui feliz, nem comigo, nem com a minha vida, nem com ninguém. Que eu vivia uma vida virtual em que eu era lindo, adorado, perfumado, cheiroso, poeta e tudo o mais. Apesar de ter me magoado muito, hoje olho essa afirmação com outros olhos. Até concordo, em parte. Hoje percebo que minhas relações sempre foram convenientes, pra mim e para as pessoas. Enquanto eu fui o descolado, o engraçado, o folclórico, todos me admiravam. O dia em que estive no fundo do poço, em que realmente precisei das pessoas, elas se distanciaram, se calaram ou me empurraram mais pro fundo. O dia em que resolvi ter uma vida real e os meus defeitos precisaram de cuidado daqueles que eu julgava serem meus alicerces, me vi sozinho porque “só magoei as pessoas que me amaram”. Não amaram. Fui conveniente também. Daí volto ao início. Viver é um caminho de volta ao útero. A maioria das pessoas chega ao fim saudáveis, felizes e realizadas, sendo enterradas, tendo a terra como o útero simbólico da mãe. Outros adoecem por sentirem que a vida foi fútil e sem sentido. Por isso, hoje estou em paz. Caminho de “volta” sem carnaval, sem alarde, sem palavras falsas de amor, sem juras impossíveis. Vivo o que é possível viver. Eu sinto-me dono de mim. E sendo dono de mim, me dôo a Anna, porque foi e é a única, além da minha mãe – dona do útero de minha vida – de meu pai – que demonstra cada dia que me ama verdadeiramente – e dos meus filhos – que são parte de mim – que está e sempre esteve de mãos dadas comigo, muitas vezes puxando a minha orelha, mas na sua direção e não pra longe. Hoje sou feliz e lamento por isso fazer mal a algumas pessoas. Rezo pela felicidade de cada um. Rezo para que se reencontrem na paz do útero materno… “Minha tribo me perdeu quando entrei no templo da paixão…” – CHICO CÉSAR

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